Você sabe que tem alguma coisa se encaminhando para a beira
do precipício quando aquela música sobre amores errados começa a fazer sentido.
Você sabe que tem algo mais errado ainda consigo mesma quando, mesmo ciente
disto, segue em frente e salta sem a menor cerimônia.
Que tipo de ser humano sádico sou eu? Existe alguma
classificação plausível para tudo isso? A minha loucura interior encontra
sempre explicações tão igualmente insanas as quais eu me prendo como se disso
me dependesse a vida. A minha loucura
justifica tudo, até que eu me revolte contra ela e a julgue por todas as suas
artimanhas de manipulação enquanto eu me fingia de inocente só para ter a quem
culpar no final das contas.
Seguir adiante com um sentimento condenado aos seus dias
finais já previamente embalados por soluços e indagações nunca fez muito o meu
tipo e, mesmo me crucificando por isto, sinto que vale a pena todo o desfecho digno
de enredo de novela mexicana se eu puder viver ao menos breves segundos do que
hoje faz moradia em mim. Talvez porque seja algo que tenha nascido livre, nada
intencionado a apagar o passado e assassinar memórias.
Eu que dedicava meus dias a arquitetar mil maneiras de
despistar fragmentos de um outro alguém, me vejo agora ansiando por um outro “outro
alguém” que nada tem a se relacionar com as minhas tramoias e boicotes
emocionais. Não existe mais um pretérito imperfeito a ser deletado. Existe uma
nova perspectiva a se viver, e a ausência de amarras, atreladas ao meu desatino,
que ocupa 70% da minha estrutura, me faz sentir que pode valer a pena agora que
não há passado, agora que posso me reinventar.
Taí, me decidi. Vou dançar essa dança mesmo sem saber da
coreografia. Vou me deliciar deste prato sem mesmo ter a menor intuição de
quais sejam seus ingredientes e vou entrar nesse barco condenado a afundar ainda
que sem saber o seu itinerário. Eu vou me esbaldar dessa sensação de liberdade
que me prende a um novo foco. Quero sair sem guarda chuva mesmo que existam
grandes possibilidades de um temporal quase que a nível catastrófico. Eu vou
viver o que há pra viver e, tal como a diz a música do Jota Quest, eu vou me
permitir.
