quarta-feira, 4 de novembro de 2015


Eu até tento, juro que tento, assumir o papel de mulher madura e discreta que roteirizei para seguir. Infinitas vezes me pego pensando “vai lá, menina, deixa o papo fluir, mas não revela nada. Permita que provem o gosto do mistério”, mas, quando dou por mim, lá vou eu narrando toda uma autobiografia ilustrada por inúmeras expressões corporais que envolve desde a minha primeira lembrança, a todas as circunstâncias que me levaram até aquele momento.
Tento segurar o passo, o riso, a língua solta e até o meu respirar, mas e quem disse que isso adianta quando o autocontrole me escapa por entre as mãos tão rebelde e sorrateiro? Antes mesmo que eu perceba, já tropecei até nas próprias pernas, sorri daquele jeito desnecessariamente alto, falei mal do esmalte borrado no dedinho do pé de alguma fulaninha disposta em meu campo de visão e entreguei todas as minhas fichas. Eu sempre me entrego (!), não tem jeito, não nasci pra essa coisa de tentar ser o que eu não quero só porque é mais bonitinho e socialmente aceitável.
Não sou socialmente aceitável, tampouco sou uma dama que não cai do salto alto e cruza as pernas ao sentar. Eu falo a mil decibéis, faço piada com a cara dos outros e até arrisco colocar os pés na poltrona da frente numa sala de cinema, mesmo que isso implique abrir mão, por um momento, de todo aquele papo clichê que envolve a importância de se manter a feminilidade. Sou totalmente atrapalhada com encontros amorosos e me enrolo com as palavras quando preciso contar uma história de narrativa muito longa. Nunca aprendi a ser contida. Se existe alguma solução pra tudo isso, já me auto diagnostico como um desses casos perdidos que a gente vê pelo mundo.
Sou tudo tão intensamente que me chega a ser difícil administrar o fato de ser eu. Já até cogitei aparar as arestas, podar sentimentos, diminuir o tom da minha voz e ser “a menininha fofinha do papai”, mas isso foge tanto a minha essência, que decidi deixar pra lá, pra depois, amanhã... Vai que, em algum desses dias, eu dou de cara com o tal do equilíbrio e a gente até marque para passear. Nunca se sabe. Ainda que me pareça isto um tanto quanto impossível, não é uma suposição tão descartável assim. Ou é?
Mas eu gosto mesmo é do efeito que eu surto em minha vida com esse jeito ainda torto de ser. Vou seguindo e vou me prometendo crescer, ainda que seja este um juramento que já é de praxe o seu não cumprimento. E, sabe do quê? Tem gente que ainda me alimenta, tem gente que ainda gosta. Há quem dê a maior força e incentive a maneira peculiar com a qual atravesso os dias. E eu, admiradora nata da arte da dramatização, encorajada pelo abrir das cortinas do teatro da vida, continuo sendo o que sou, para que, um dia, talvez eu escute os conselhos da minha pobre vózinha ao dizer “ô, criatura, tome jeito”. Mas isso quem sabe um dia. Ou nunca mesmo. 


É que, depois de todo esse tempo, você foi o único que me trouxe de volta a inspiração de direcionar as minhas palavras a alguém em forma de texto. Imaginar o que poderíamos ser se não fosse todo o meu medo já não me cabia unicamente em pensamento, os devaneios agora me escorrem pelos dedos e é a sua imagem que eu vejo no decorrer desta narrativa que só me remete ao nosso último momento como o par equivocado que fomos, ou somos, não sei... não consigo ignorar o fato de que seremos pra sempre, ainda que você se case e se mude pro Himalaia e faça três filhos em uma mulher que não será eu, e isso por um único motivo tolo, a minha covardia.
Fugir do amor nunca foi do meu feitio, mas é como se você só ressurgisse nas horas mais erradas. Eu sempre estou em fuga de algo ou alguém quando você se oferece a me estender a mão para se tornar um foragido junto comigo. Há, em primeiro instante, um magnetismo inexplicável que me impulsiona a aceitar, que une os nossos pólos de um modo inevitável, mas, depois, me pego em debate interno, me pego tentando repelir essa força estranha que vai além de mim, e tudo que vai além de mim me assusta. Na verdade, como você mesmo diz, TUDO me assusta.
Eu gostava de não poder me envolver e ainda assim estar envolvida, gostava do quanto era errado e tão nosso esse pecado de nos querer. Eu ainda gosto das lembranças dos meus breves súbitos de coragem que me levaram a beijar você de novo, gosto de saber que, ainda que por tão pouco tempo, você foi a minha fonte geradora de autenticidade. Amava quase tanto a sensação de estar encrencada pelo mero motivo de estar enroscada em teus braços quanto eu amo você.
Ah, menino da armadura de ferro, quebramos nossas promessas mais uma vez. Eu falei que não mais partiria e você me disse um dia que eu não seria capaz de magoá-lo jamais, ainda que eu tivesse esse propósito planejado. Agora releio mentalmente você dizer o quanto lhe feria me ver seguir com a escolha de soltar sua mão. Grandes mentirosos que somos! Até ontem éramos tudo e hoje, ora veja, não somos mais nada. Sou tão somente a menina que sente sua falta e você, provavelmente, o cara condenado a ser meu ainda que não mais o seja, devido a razão estranha que nos faz um do outro mesmo que venhamos a pertencer a mais alguém em qualquer lugar no mundo. 
“Somos pra sempre”, uma dia a Tati Bernardi escreveu, acho que ela sabia da gente.

Vai lá e sussurra aos ouvidos daquela menina de 15 anos, assombrada pelos efeitos do seu primeiro beijo, que do amor não se esquiva. Conta pra ela que foi ali, no meio daquela festa em que tudo saiu como o programado, onde se deu o selar do contrato irrevogável, renovável a cada batimento enérgico de dois corações ainda jovens, imaturos e aflitos. Pega a menina pela mão e diz que é preciso lhe contar um segredo, a faça entender que esse ritmo dançante, comparado ao de uma sambista em plena passarela, habitado em seu peito, é o que regerá a sua vida dali por diante. Diz ainda que a dançarina cambaleia e perde o passo independente de quantas sejam as vezes em que ela virá a soltar da mão do menino o qual o primeiro momento do encontrar dos olhos não lhe abandona a memória. Vai, corre e berra chacoalhando-a pelos ombros magricelos, pronuncia qualquer palavra que faça aquela cabecinha de vento, orgulhosa em demasia para a sua idade, decifrar, mesmo que com algum esforço, que será naqueles braços os quais ela desejará se enroscar cada vez que a noite lhe parecer escura demais, ou os seus sonhos teimem em não tornarem-se reais, ou que o fardo de viver seja pesado e machuquem as suas costas. Manda um bilhete, escreve uma história... Fala pra ela do futuro. Diz que aquele amor que agora lhe surge como novidade, continua a fazer parte da alma de uma mulher que hoje vivencia os seus vinte e poucos anos, a qual aprendeu, ainda que sem nenhum conselho, que pra ser feliz não se espera.


Vai lá e diz a ela que ela encontrou o amor de verdade, diz a ela...