domingo, 20 de março de 2016


A gente sabia que seria só um momento isolado, que seríamos apenas nós dois naquele instante e depois voltaríamos a ser mais nada. Não dávamos certo juntos, era uma verdadeira catástrofe, algo crucial nunca nos foi compatível além do amor que carregamos no peito, só amar nunca nos sustentou, mas precisávamos daquele último instante. Não contamos nem aos nossos mais íntimos amigos, era algo tão somente nosso, opiniões e julgamentos não importavam, era precioso demais para ser compartilhado, foi o nosso tesouro secreto, agora para sempre enterrado. 
Depois de tantos meses eu o olhei nos olhos novamente, vi, então, sua alma se despir diante de mim, minha armadura rachou completamente, caiu no chão e se desfez em mil pedaços, voltamos a ser os dois jovens que um dia fomos e, ali, atordoados pelo turbilhão de sentimentos, nos perdemos um no outro. 
"Eu te amo" era o que dizíamos, "vou te amar para sempre". Sim, iríamos, mas amar não quer dizer estar junto. E foi bem ali, deitada, ouvindo a respiração pesada em seu peito, que me dei conta de que era preciso partir, de novo.
Algumas pessoas foram feitas para se amarem, mas não para permanecerem uma ao lado da outra, nós somos essas pessoas, sempre seremos, esse é o nosso castigo e aprendemos, depois de tanto insistir, a aceitá-lo. 
Então essa parte de mim que agora escreve estas palavras foi embora daquele quarto, a minha outra metade, porém, ainda está lá, ouvindo o coração dele bater bem de perto, mas cumprimos com o combinado, com o nosso pacto, era necessário, talvez ninguém entenda, mas nós entendemos, isso basta. 
Eu o amarei para todo o sempre, ainda que esteja velhinha numa cadeira de balanço, com a memória fraca devido o passar de tanto tempo, mas dele e desse momento eu não esqueço. Meu coração não o esquecerá. Pela última vez fomos um do outro, que bom que nos permitimos isto, mas agora temos que seguir, e seguir, para mim,, é um caminho sem volta. Adeus você, meu amor. Adeus nós dois.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015


Aquela não era eu, aquela era uma menina que fingia se enquadrar em coisas que não lhe cabiam, não se adequavam, não encaixavam, não batiam! Deixe-me explicar. É que eu não nasci emocionalmente ajustada para esse mundo em que tudo é tratado com tão pouco empenho quando o assunto é coração. Porém, até pouco tempo eu tentava fingir que sim, sem a menor margem de sucesso, mas fingia.
Eu pensei que depois de uma certa idade a gente aprendia a não mais se decepcionar e transformar o coração em pedra de gelo, o que não passou de um mero devaneio descabido meu e caí na real de quem eu realmente era: uma romântica nata e imutável, não dá mesmo pra fugir do que somos.
As pessoas têm preguiça de amar e, com isso, banalizam pequenos (grandes) gestos essenciais. É tão raro alguém declarar seus sentimentos de peito aberto, olhar nos olhos do outro e dizer "ei, você é importante pra mim" ou "sabia que eu gosto mesmo de você?". Fizeram do amar um jogo de egos, uma competição onde aquele que consegue parecer menos interessado vence. Tudo tão mecânico e superficial, e eu tenho tanta coisa morando no peito, uma cidade inteira de coisas, sentimentos e momentos guardados em mim, enquanto que essa gente parece um recipiente humano comportando grandes vazios em seu interior. É estranho.
Veja bem, é dito por aí que um beijo não é nada. Nada é nada, um beijo é um beijo, e cada coisa tem um significado. Beijo é encontro de almas, troca de energias. Ora, é ao menos pra mim, que talvez não seja um ser desse mundo mesmo. Hello! Marte falando para o planeta Terra: algum marciano perdido nesse lugar maluco também? Deve ter, sempre há. Parte integrante de uma espécie quase extinta, mas há.
Apesar dos pesares, acreditar ainda vale a pena.
Falta ele todos os dias no meu "boa noite" antes de dormir, falta ele nas tardes de domingo no meu quarto assistindo um filme qualquer. Falta ele nas minhas conversas diárias e nas fotos do porta retrato. Falta ele. Ele faz falta nas minhas caminhadas à beira mar, ele me faz falta quando toca aquela música cheia de significados... Ele me faz muita falta. Noites como esta são as que mais gritam a ausência dele, o meu cobertor vazio questiona incessantemente por ele, e o frio que arrepia a minha pele é só um dos tantos sintomas da abstinência de um calor que só ele pode ter. A saudade dele é quase que uma dor física em alguns momentos, e esta noite é um desses momentos, assim como amanhã também será. Falta ele no aqui e no agora, falta ele no "eu amo você" empoeirado e guardado na gaveta, falta ele nas notificações despretensiosas no meu celular. À ele lhe falta um nome, à ele falta um rosto, uma identidade, à ele falta uma coincidência ou acaso que o ligue à minha vida, à ele lhe falta a mim e à mim ele faz falta. À nós nos faltamos, e assim nos manteremos até um dia não haver mais essa falta, nem lacuna, nada. Um dia seremos um e não dois que se ausentam para formar uma soma perfeita. Um dia teremos um ao outro e, então, teremos tudo.

Quando eu percebi que estou sozinha porque eu quero, tudo se tornou mais fácil e parei de me vitimizar. Quando eu notei que eu é quem intimamente encontrava motivos para me afastar de novas possibilidades de relacionamentos amorosos, foi que tudo se tornou mais fácil. Antes eu costumava culpar o mundo, as estrelas, o zodíaco, as circunstancias, CULPAVA ABSOLUTAMENTE TUDO, e a única mocinha sofredora, digna de protagonista de novela mexicana, era essa a quem vos fala. Eu reclamava, menina, como eu reclamava! Ninguém era suficiente, ou não era atraente ou não tinha o estilo de vida que eu gostaria de acompanhar, ou era novo demais e até mais velho... a questão é que nunca se enquadrava e aí eu me deprimia e me sentia "abandonada", achava que devia mesmo era ficar sozinha eternamente, mas era esta uma eternidade que durava uma só noite e, logo no outro dia, mais uma vez eu me envolvia em alguma nova "caçada". A verdade é que nem eu sabia o que queria, e nem sei ainda o que quero agora. Tropecei em mim mesma ao procurar por algo para o qual EU não estava preparada e condenava Deus e o mundo porque é sempre mais fácil jogar a culpa no resto da humanidade do que olhar no espelho e ver a causa dos seus problemas bem na sua frente. Quando caí na real, notei o quanto pode ser bom estar sozinha, se amar um pouquinho pra depois abrir espaço para que alguém nos ame também. A "solidão" nos causa a auto aceitação. Mas ninguém é sozinho quando se pode contar consigo mesmo, quando somos amigos do nosso próprio ego. E é bom, menina, como é bom! Se conhecer melhor por dentro sempre foi a chave pra todas as portas da vida e eu não sabia. Conhecer a si mesmo te faz se apegar a tantos detalhes seus que a gente passa a não aceitar que surja alguém que não ame desde o nosso fio de cabelo até a ponta do dedo mindinho. E é aí que a gente fica pronta, porque passamos a ser pessoas completas que não buscam nossas metades, mas sim quem nos transborde, quem abra nossas represas e nos deixe desaguar. Mas quando, afinal, isso acontece? Ah, são cenas para um próximo capítulo, minha cara, sem pressa tudo há de chegar. A vida acontece. Sempre.

Eu acho engraçado o tal do amor. A gente tem sede da presença do outro, sentimos fome de um beijo, carência de um gesto. A gente deposita um sentimento tão bom e devastador ao mesmo tempo em alguem que é só... um alguém (!). É tão alguém quanto nós mesmos, e ainda assim nos faz sentir incompletos quando por algum contratempo, seja passageiro ou eterno, a vida vem a afastar o alguém em questão da gente. Sempre fui intrigada com isso. O outro é só o outro que aparece de repente, nem sequer é parente, é só um ser humano complexo, inseguro e tão estranho quanto todos nós somos e, ainda assim, vemos o mundo inteiro girar naquele ponto fixo que, talvez, por alguma distração do destino, poderíamos nem sequer ter conhecido. Mas aí então a gente conhece. E todos os pólos do planeta se conectam. E a gente se aquece por dentro com o calor que vem de outra pessoa. Esquisito, não é? Eu acho. Acho, na verdade, um enigma grandioso toda essa necessidade de se ter alguém do lado, mas esse alguém só verdadeiramente importa enquanto for o tal alguém, até que surja um outro e se torne o alguém de novo e o ciclo vicioso acontece. É isso! O amor é vício. Vício que nasce dentro do peito sem que ao menos se precise experimentar para que em seguida venha a fase de dependência. O amor é. Simplesmente é e continuará sendo. Sem definições. O amor é mistério. Entendeu? Nem eu. Não ainda.

Eu venho tentando escrever sobre qualquer coisa relacionada a você - e quando digo "qualquer", é qualquer coisa MESMO - e isso já faz uma boa parcela de tempo. Estou bloqueada. O máximo que consigo no meio de tantas tentativas é apenas colecionar algumas bolas de papel rabiscado empilhadas em um canto visível do meu quarto. Você me travou. É como viver a metáfora de que a criatividade me foi um membro agora amputado e que faz muita falta, talvez porque qualquer registro que eu pudesse fazer pelo uso das palavras jamais descreveriam o que você me fez. Me bagunçou, virou do avesso e fugiu com toda a definição disso dentro da mochila. Me sinto temporariamente oca e um tanto frustrada pois agora, ainda que algo aqui eu escreva, não digo absolutamente nada. Nada além de um zilhão de frases que repitam implicitamente: "você me trincou por dentro". Eu fiz um texto que fala isso todo o tempo, enfeitado de alguns outros dizeres inúteis. É, você me quebrou.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015


Eu até tento, juro que tento, assumir o papel de mulher madura e discreta que roteirizei para seguir. Infinitas vezes me pego pensando “vai lá, menina, deixa o papo fluir, mas não revela nada. Permita que provem o gosto do mistério”, mas, quando dou por mim, lá vou eu narrando toda uma autobiografia ilustrada por inúmeras expressões corporais que envolve desde a minha primeira lembrança, a todas as circunstâncias que me levaram até aquele momento.
Tento segurar o passo, o riso, a língua solta e até o meu respirar, mas e quem disse que isso adianta quando o autocontrole me escapa por entre as mãos tão rebelde e sorrateiro? Antes mesmo que eu perceba, já tropecei até nas próprias pernas, sorri daquele jeito desnecessariamente alto, falei mal do esmalte borrado no dedinho do pé de alguma fulaninha disposta em meu campo de visão e entreguei todas as minhas fichas. Eu sempre me entrego (!), não tem jeito, não nasci pra essa coisa de tentar ser o que eu não quero só porque é mais bonitinho e socialmente aceitável.
Não sou socialmente aceitável, tampouco sou uma dama que não cai do salto alto e cruza as pernas ao sentar. Eu falo a mil decibéis, faço piada com a cara dos outros e até arrisco colocar os pés na poltrona da frente numa sala de cinema, mesmo que isso implique abrir mão, por um momento, de todo aquele papo clichê que envolve a importância de se manter a feminilidade. Sou totalmente atrapalhada com encontros amorosos e me enrolo com as palavras quando preciso contar uma história de narrativa muito longa. Nunca aprendi a ser contida. Se existe alguma solução pra tudo isso, já me auto diagnostico como um desses casos perdidos que a gente vê pelo mundo.
Sou tudo tão intensamente que me chega a ser difícil administrar o fato de ser eu. Já até cogitei aparar as arestas, podar sentimentos, diminuir o tom da minha voz e ser “a menininha fofinha do papai”, mas isso foge tanto a minha essência, que decidi deixar pra lá, pra depois, amanhã... Vai que, em algum desses dias, eu dou de cara com o tal do equilíbrio e a gente até marque para passear. Nunca se sabe. Ainda que me pareça isto um tanto quanto impossível, não é uma suposição tão descartável assim. Ou é?
Mas eu gosto mesmo é do efeito que eu surto em minha vida com esse jeito ainda torto de ser. Vou seguindo e vou me prometendo crescer, ainda que seja este um juramento que já é de praxe o seu não cumprimento. E, sabe do quê? Tem gente que ainda me alimenta, tem gente que ainda gosta. Há quem dê a maior força e incentive a maneira peculiar com a qual atravesso os dias. E eu, admiradora nata da arte da dramatização, encorajada pelo abrir das cortinas do teatro da vida, continuo sendo o que sou, para que, um dia, talvez eu escute os conselhos da minha pobre vózinha ao dizer “ô, criatura, tome jeito”. Mas isso quem sabe um dia. Ou nunca mesmo.