Eu até tento, juro que tento, assumir o papel de mulher madura e discreta que roteirizei para seguir. Infinitas vezes me pego pensando “vai lá, menina, deixa o papo fluir, mas não revela nada. Permita que provem o gosto do mistério”, mas, quando dou por mim, lá vou eu narrando toda uma autobiografia ilustrada por inúmeras expressões corporais que envolve desde a minha primeira lembrança, a todas as circunstâncias que me levaram até aquele momento.
Tento segurar o passo, o riso, a língua solta e até o meu respirar, mas e quem disse que isso adianta quando o autocontrole me escapa por entre as mãos tão rebelde e sorrateiro? Antes mesmo que eu perceba, já tropecei até nas próprias pernas, sorri daquele jeito desnecessariamente alto, falei mal do esmalte borrado no dedinho do pé de alguma fulaninha disposta em meu campo de visão e entreguei todas as minhas fichas. Eu sempre me entrego (!), não tem jeito, não nasci pra essa coisa de tentar ser o que eu não quero só porque é mais bonitinho e socialmente aceitável.
Não sou socialmente aceitável, tampouco sou uma dama que não cai do salto alto e cruza as pernas ao sentar. Eu falo a mil decibéis, faço piada com a cara dos outros e até arrisco colocar os pés na poltrona da frente numa sala de cinema, mesmo que isso implique abrir mão, por um momento, de todo aquele papo clichê que envolve a importância de se manter a feminilidade. Sou totalmente atrapalhada com encontros amorosos e me enrolo com as palavras quando preciso contar uma história de narrativa muito longa. Nunca aprendi a ser contida. Se existe alguma solução pra tudo isso, já me auto diagnostico como um desses casos perdidos que a gente vê pelo mundo.
Sou tudo tão intensamente que me chega a ser difícil administrar o fato de ser eu. Já até cogitei aparar as arestas, podar sentimentos, diminuir o tom da minha voz e ser “a menininha fofinha do papai”, mas isso foge tanto a minha essência, que decidi deixar pra lá, pra depois, amanhã... Vai que, em algum desses dias, eu dou de cara com o tal do equilíbrio e a gente até marque para passear. Nunca se sabe. Ainda que me pareça isto um tanto quanto impossível, não é uma suposição tão descartável assim. Ou é?
Mas eu gosto mesmo é do efeito que eu surto em minha vida com esse jeito ainda torto de ser. Vou seguindo e vou me prometendo crescer, ainda que seja este um juramento que já é de praxe o seu não cumprimento. E, sabe do quê? Tem gente que ainda me alimenta, tem gente que ainda gosta. Há quem dê a maior força e incentive a maneira peculiar com a qual atravesso os dias. E eu, admiradora nata da arte da dramatização, encorajada pelo abrir das cortinas do teatro da vida, continuo sendo o que sou, para que, um dia, talvez eu escute os conselhos da minha pobre vózinha ao dizer “ô, criatura, tome jeito”. Mas isso quem sabe um dia. Ou nunca mesmo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário